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Um método para dimensionamento de válvulas de alívio em tubulações hidráulicas

Dedução, a partir da equação de Bernoulli e da fórmula de Allievi para golpe de aríete, de um método para determinar o diâmetro necessário de uma válvula de alívio.

Por Luiz A. Camargo↓ Baixar PDF original

As válvulas de alívio são dispositivos mecânicos que têm por finalidade atuarem na proteção das tubulações contra as sobrepressões. Através de mecanismos internos reguláveis, automaticamente abrem-se quando a pressão no interior da tubulação excede a valores pré-ajustados, permitindo a saída de uma quantidade de água, suficiente para que a pressão caia até o valor ajustado, quando, então, fecham-se. Desta forma conseguem exercer um controle sobre o excesso de pressão, reduzindo-o, e com isto mantêm a tubulação protegida. São indicadas para utilização em adutoras e redes de abastecimento em geral, em sistemas industriais, em irrigação, e em instalações prediais.

Fenômenos como o golpe de aríete podem elevar a pressão no interior de condutos a níveis imprevisíveis e até mesmo perigosos. Muitas vezes atingem valores superiores ao próprio limite de resistência do material constitutivo dos tubos, podendo, por isto, provocar a ruptura dos mesmos, não raro com inundações, danos, indenizações, etc.

Válvulas de alívio são dispositivos práticos, eficazes e de baixo custo. Devem ser instaladas no trecho da tubulação que se deseja proteger contra os efeitos da sobrepressão, e devem abrir-se a uma pressão pré-fixada na ordem de 10% acima da altura manométrica local. Este valor é um limite prático, recomendado por diversos especialistas, e capaz de dar segurança ao sistema. Algumas válvulas já vêm de fábrica reguladas, enquanto que outras permitem ao próprio usuário fazer a regulagem.

O problema do dimensionamento

O dimensionamento de válvulas de alívio consiste basicamente em se determinar qual deverá ser o diâmetro da válvula, necessário para limitar a pressão da água escoando no interior do conduto em um valor máximo fixado previamente. Um método para se conseguir isto é utilizando a conhecida equação de Bernoulli. De forma simplificada, conforme ilustrado na figura anexa, aplicando-se esta equação entre os pontos 1 e 2, obtém-se:

v₁²/2g + p₁/γ + z₁ = v₂²/2g + p₂/γ + z₂ + h₁₋₂ (1)

onde:

v₁²/(2g) = 8Q²/(gπ²D⁴) (2)

p₁/γ = Hmax (3)

z₁ = z₂ (4)

v₂²/(2g) = 8q²/(gπ²d⁴) (5)

p₂/γ = 0 (6)

h₁₋₂ = 8·(ke + kv)·q²/(gπ²d⁴) (7)

E as variáveis representam o que segue:

  • D = diâmetro interno do conduto (m)
  • d = diâmetro efetivo da válvula (m)
  • Q = vazão da água no interior do conduto (m³/s)
  • q = vazão da água através da válvula (m³/s)
  • ke = coeficiente de perda de carga na entrada do orifício de saída do conduto para a válvula (≅ 0,5)
  • kv = coeficiente de perda de carga na válvula (fornecido pelo fabricante da válvula)
  • h₁₋₂ = perda de carga entre os pontos 1 e 2 (mca)
  • Hm = altura manométrica no ponto onde se situa a válvula (mca)
  • Hmax = altura máxima desejável na seção onde se situa a válvula (cerca de 10% acima de Hm)
  • a = celeridade da tubulação (m/s)
  • g = aceleração da gravidade (9,806 m/s²)

Dedução

Substituindo as equações (2) a (7) em (1), vem:

8Q²/D⁴ + (gπ²/8)·Hmax = (1 + ke + kv)·q²/d⁴ (8)

Durante a abertura da válvula, a variação que ocorrerá na vazão será justamente a diferença entre a vazão no conduto e a vazão na válvula, ou seja:

ΔQ = Q − q (9)

O valor máximo da elevação de pressão, dado por Allievi, em condições de golpe de aríete, será:

ΔH = (a/g)·Δv, ou seja Δv = g·(Hmax − Hm)/a

Mas como ΔQ = A·Δv e A = πD²/4, logo:

ΔQ = πD²·g·(Hmax − Hm)/(4a) (10)

Daí, substituindo a equação (9) na (10), vem:

q = Q − πD²·g·(Hmax − Hm)/(4a) (11)

Levando a equação (11) na equação (8) e desenvolvendo:

d = [ (1 + ke + kv) / (12,09·Hmax + Q²/D⁴) ]^0,25 · [ Q − 7,7·D²·(Hmax − Hm)/a ]^0,5 (12)

Com a equação (12) pode-se determinar o diâmetro que deverá ter uma válvula de alívio, que limitará a pressão no interior do conduto em um valor máximo Hmax.

Exemplo ilustrativo

  • Q = 0,132 m³/s
  • D = 0,3 m
  • Hmax = 90,2 m
  • Hm = 82 m
  • ke = 0,5
  • kv = 2,5
  • a = 1140 m/s

Estes dados levados à equação (12) resultam em d = 0,087 m ≅ 3½“.

Referências bibliográficas

  • TULLIS, J.P. “Hydraulics of Pipelines. Pumps, Valves, Cavitation, Transients”. Wiley, New York, 1989.
  • SIMON, A.L. “Hydraulics”. John Wiley & Sons, New York, 1986.

Vitória, ES, julho de 1996. O autor é ex-Assistente Técnico da Tubos e Conexões Tigre S/A e ex-Professor Técnico da Fortilit S/A. Atualmente é Chefe de Manutenção do SESC/ES. E-mail: [email protected]